Lição Homérica

*Texto escrito por Guilherme Inojosa em 23 de Agosto de 2009

“Se colocarem o governo federal para administrar o deserto do Saara, em cinco anos faltará areia” (Milton Friedman)

Antes que você leitor pense que esse artigo tratará de algo relacionado ao poeta homônimo, da Grécia Antiga, eu pretendo dizer que não foi a ele que me referi no título deste artigo. Também não estava falando de nenhum ambientalista, economista ou governante. Homero é o meu avô, que me deu a maior lição de preservação ambiental da minha vida.

Certa vez fomos pescar juntos, quando eu tinha apenas oito anos, porém não tinha quase nenhum peixe no mar e a pescaria foi um fracasso. Em meio ao tédio da pescaria eu enchi o saco e perguntei para ele o porquê dos peixes estarem acabando no mar, fui respondido com um sorriso e a seguinte frase:”O que é de todos não é de ninguém”. Foi aí que simplesmente meio que uma luz surgiu na minha mente.

“Cada um, guiado pelos seus próprios interesses, poderia fazer a floresta sobreviver.”

Eu pensei que alguém poderia ter a brilhante idéia de criar um curral para peixes, onde lá eles seriam tratados de forma auto-suficiente para não acabarem e qualquer um poderia ir lá e pescar, pagando apenas uma quantia por hora para o proprietário. Todos sairiam ganhando com isso, seria algo bom para todos os que gostam de pescar, melhor ainda para o dono do curral e não degradaria as condições do meio-ambiente.

Do ponto de vista econômico dizemos que os peixes enquanto eram propriedade pública podiam ser pescados por qualquer um e não havia nenhum incentivo para que alguém cuidasse deles. Ao se tornar um bem privado, o dono do curral, movido pelos seus próprios interesses, iria preservá-los de forma que mais peixes nascessem em relação aos que morreriam pescados.

Se levarmos essa base teórica para o problema da Amazônia atual poderíamos tirar muitas dúvidas sobre a melhor forma de preservá-la. A floresta, por ser um bem público, está sendo desmatada e diminuindo seu tamanho a cada dia. Novas leis simplesmente não estão sendo suficientes para barrar o lucro que pode ser tirado com isso por parte dos desmatadores. Não há como aumentar a fiscalização em uma floresta de tamanhas proporções. Enfim, nenhuma tentativa através da lei para mudar isso se mostrou possível.

Uma solução simples para preservá-la, seria simplesmente vender seus lotes para empresas que se comprometessem de alguma forma a preservá-la. Madeireiras poderiam se candidatar a utilizar a madeira de lei da Amazônia e depois replantariam as árvores – caso contrário não teriam lucro, laboratórios de pesquisa poderiam utilizar os recursos da floresta do jeito que encontraram para não atrapalhar o rendimento de sua pesquisa, empresas que trabalham com látex iriam retirá-lo de forma auto-sustentável e assim sucessivamente, com um diversificado ramo de atividades que poderiam ser exercidas na floresta. Cada um, guiado pelos seus próprios interesses, poderia fazer a floresta sobreviver.

Uma questão que sempre me intrigou foi como os burocratas ainda não tinham descoberto, ou quem sabe haviam descoberto e não queriam aplicar por motivos políticos, esse método bastante eficaz para se impedir o desmatamento desenfreado da Floresta Amazônica, algo tão evidente que até um ingênuo garoto de oito anos conseguiu perceber. Porém há alguns meses atrás finalmente vi uma notícia que me agradou.

O governo de Rondônia anunciou a privatização da Floresta Nacional do Jamari para três empresas- Amata, Asakura e Alex Madeiras- sendo analisadas as ofertas de cada empresa em termos de beneficio social e impacto ambiental da proposta, valendo 60% da pontuação nesse processo, e em termos financeiros, que valiam os outros 40%. Não parando por aí, as estimações da Sociedade Florestal Brasileira (SFB) são de nos próximos 10 anos privatizarem mais 13 milhões de hectares de florestas, o que já é um grande passo para conseguir o objetivo de uma preservação ambiental no Brasil, e quem sabe o mesmo possa ser feito com toda a parte brasileira da Floresta Amazônica.

Infelizmente, sempre existem aqueles que, por uma crença incondicional no poder legal, irão se opor a essas atitudes. Alguns irão acusar o governo de ‘entreguista’ ou “seguidor dos interesses do Consenso de Washington’. Outros simplesmente ignoram as leis da economia e tentam contra- argumentar em favor da onisciência do poder estatal. Para o pesquisador Elder Andrade, da Universidade Federal do Acre, o argumento de que a privatização ajudaria na preservação “não é sério” e afirma que a indústria madeireira não é capaz de conciliar exploração e preservação. A lógica econômica já refuta completamente esses opositores, que argumentam apenas utilizando frases de efeito nutridas por um ódio irracional sobre o livre mercado, vamos esperar que o desenrolar dos fatos faça o mesmo.

Se quisermos preservar a Floresta Amazônica, deveremos tratá-la como um bem privado, não como um bem público.

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2 Comentários

Arquivado em Artigos - Não Quebre a Janela

2 Respostas para “Lição Homérica

  1. Caio Barbosa

    A ideia em sí é ótima. Mas existem as complicações. Não sabemos se vão cumprir com o acordado, se irão realmente manter a floresta. Na lógica, eles poderiam muito bem explorar ao máximo, e comprar “novas”. É algo delicado.

  2. georgehrtbrkr

    Também não creio que seja tão simples assim. Quando se corta uma árvore, não é apenas a própria árvore que perde a vida. A árvore em si é um ecossistema completo, inúmeros seres vivos dependem da mesma. Cortar uma árvore e plantar duas depois não é solução efetiva. Vai demorar décadas pra se estabelecer novamente um equilíbrio natural ali. Imagine essa situação multiplicada pela quantidade de madeira que as madeireias precisam para lucrar… Mas se o impacto ambiental for menor em relação ao benefício social, serei a favor dessa meidda, certamente

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