A arbitrariedade central

*Por Lucas Nutels

Nota do Autor: O artigo faz parte da série “O que o governo deve fazer para promover a inovação?”. Uma compilação de vários textos e que juntos formam uma visão à respeito das políticas de empreendedorismo e inovação adotadas no Brasil e no mundo.

Durante os períodos sombrios da União Soviética, Trofim Lysenko (1898-1976), agrônomo e biólogo, tomou partido de altos cargos e se destacou pela sua habilidade política. Foi extremamente contrário às ideias propostas por Gregor Mendel, conhecido como o pai da genética. Lysenko era um arrogante intelectual e tinha nas mãos o poder de dirigir boa parte dos rumos científicos da URSS, até mesmo condenando todos aqueles que o contrariavam ao ostracismo acadêmico e aos campos de trabalho forçado.

Severos ataques da nomenklatura, influenciadas por Lysenko, acusaram Mendel de reacionário e inimigo do povo soviético, tachando sua contribuição de “pseudociência burguesa“. O que seria da biologia se Mendel tivesse sido morto em um gulag antes de ter propalado suas ideias para o mundo? Caso, na época, o mundo adotasse o lysenkismo, a ciência que hoje nos permite entender a hereditariedade e que traz a possibilidade de cura de milhares de enfermidades poderia não existir. Não raras as circunstâncias em que o progresso científico foi barrado, Galileu Galilei após destruir o geocentrismo sofreu da mesma perseguição que Mendel. Os casos de supressão do progresso científico pela ignorância institucionalizada são inúmeros, mas deixam na União Soviética um grande legado.

Se a ciência é a verdade, ou a busca da verdade, fica bem claro o quão difícil é conciliar ciência e política, o que sempre acabará resultando numa arbitrariedade ideológica. De certo a sociedade também pode escolher errado, mas isso terá acontecido num ambiente livre e a culpa não será somente da sociedade. A culpa do insucesso das boas ideias recai também sobre seus donos por não terem sidos convincentes o suficiente. O gênio criativo, além de o ser, carece da responsabilidade de uma boa disseminação do seu trabalho, valendo destacar o trabalho de Van Gogh, que enfrentou diversos problemas pessoais, sucumbiu ao suicídio e somente teve a obra reconhecida postumamente.

O Estado não precisa intervir em boas ideias, pois as boas ideias não precisam de caridade para serem bem-sucedidas. Rothbard descreveu:

“O inventor individual digno está longe de ser indefeso no mundo moderno. Ele pode, em um sistema de livre empresa, se tornar um consultor freelancer para a indústria, pode trabalhar em invenções de terceiros, pode vender suas ideias para as empresas, pode formar ou ser apoiado por uma associação de pesquisa (tanto com ou sem fins lucrativos), ou pode obter ajuda de organizações privadas especiais que investem em capital de risco em pequenas invenções especulativas.”

É importante lembrar que na época em que Rothbard escreveu o texto, o mesmo estava muito distante de conhecer a atual sofisticação dos mercados de capitais e dos conceitos de private equity, venture capital, crowd funding, seed money, angels investors e startup. Todos projetados num ambiente em que a propagação da informação acontece em tempo real e utilizando-se de um processo baseado em erros e acertos. O arranjo possibilita o financiamento tanto perseguidores de lucro como de interessados em ciência por hobby, levando ao estímulo de novos negócios e atividades inovadoras. O controle político, ideológico e pessoal da ciência não se compara a imparcialidade e impessoalidade do mercado, todavia é entender, antes de tudo, que para caminhar de A até B o governo não é a única saída.

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