A falta de razão sobre a inflação

*Por Guilherme Inojosa

Andou circulando na internet uma carta aberta de 2010 escrita por Theotonio dos Santos a Fernando Henrique Cardoso a respeito do fracasso deste como gestor. Embora uma crítica a um presidente que teve sim problemas graves ser sempre válida, há de se analisar uma falácia grave que o texto em questão retrata: A do sucesso da política de controle da inflação.

O argumento principal do texto recai sobre o seguinte aspecto: Todos os países do mundo estavam com hiperinflações acima de 10% que começaram a cair a partir de 94. Consequentemente, não se pode atribuir essa decaída ao governo FHC, mas a um fenômeno cíclico e natural da economia. Santos, entretanto, parece amparar sua intuição mais em fatores místicos e irracionais do que em fatos concretos.

Em primeiro lugar, comete um erro histórico crasso. O mundo não se encontrava em hiperinflação, as taxas de inflação nos países desenvolvidos haviam sido estabilizadas desde a década de 80, onde se contornou um fenômeno chamado estagflação, e estava normalizada e abaixo de 3%. Como uma base de comparação, a Itália, maior inflação da cúpula do G7 e1994, estava diante diante de um IPC de 4,03% ao ano.

Havia, na verdade, uma inflação acima de 10% sim na maior parte dos países emergentes, compostos por ex-membros do bloco socialista ou países tidos como subdesenvolvidos. Pode-se atribuir esse fenômeno ao mero acaso? Evidentemente que não, pois existe um fator crucial decorrente em todos os governos com esse problema: Os gastos do setor público serem superiores à arrecadação. Nos países que essa variável se encontrava normalizada, como Bélgica ou Austrália, não possuíam perigo do dragão inflacionário, enquanto países notabilizados pela irresponsabilidade fiscal, como Rússia ou Turquia, estavam com o problema de hiperinflação por terem que cobrir seus gastos com papel impresso. A que podemos atribuir isto? A um ciclo natural ou às políticas econômicas adotadas por cada um dos países envolvidos.

As inflações caíram nos anos posteriores no mundo inteiro, mas por uma mudança nas políticas de setor público em cada um dos países, com um fortalecimento relativo do poder do Banco Central à fim de evitar uma impressão excessiva de dinheiro público e assim um aumento considerável do insumo dinheiro no mercado(o qual, como qualquer mercadoria, iria perder o valor com uma oferta maior).

Outra falácia cometida pelo articulista é a de, apropriadamente, esquecer-se que o Brasil estava junto a diversos outros países do ponto de vista qualitativo(possuidor de hiperinflação), mas era uma referência no setor do ponto de vista quantitativo. A inflação anual brasileira no ano de 1994 foi contabilizada com 916,46% ao ano, 4.26 vezes maior do que o segundo colocado(Rússia). Como uma experiência prática, imagine-se com um real hoje, no mesmo dia do ano seguinte ele não teria o pode de compra de sequer um centavo.

O segundo erro recai em reduzir o fenômeno econômico a um puro historicismo, onde as variáveis respondem a um fenômeno natural ditado pela história. As teorias que reduzem a inflação a um fenômeno histórico falham, entre outras razões, por não conseguirem definir o que gera as inflações discrepantes em um momento onde ela está relativamente controlada, ou o gerador valores muito baixos quando a inflação está acima da média no mundo inteiro. O que explica, pela corrente histórica, a inflação da República de Weimar, na Alemanha? Ou a hiperinflação no Zimbabué nos tempos atuais?

O que explica é simples: O dinheiro é uma mercadoria como qualquer outra e um excesso de oferta faz com que o seu valor despenque. Caso um determinado país acione a maquininha de imprimir dinheiro, os preços irão subir por você precisar de mais moeda para comprar o mesmo número de bens descritos anteriormente. Foi justamente isso que ocorreu no Governo Geisel, uma aliança de um plano de desenvolvimento megalomaníaco usando dinheiro do exterior e financiamento da dívida externa com base na impressão de dinheiro. Não é à toa que a inflação grande ocorreu em países reconhecidos por seus altos gastos governamentais(sendo mais sintomático nos casos de Brasil, Rússia, Turquia)

De fato, a inflação despencou nos anos posteriores no mundo inteiro, mas isso se deveu a uma visualização no panorama mundial de que o cenário onde os países emergentes se encontravam com índices superiores a 10% ao ano de inflação, um valor que seria tido como um paraíso diante do que foi encontrado no Brasil, e foi adotado medidas pelos Bancos Centrais a nível mundial à fim de diminuir o dinheiro em circulação e reestruturar o sistema de preços, sendo as medidas mais notáveis a adoção do Real e uma taxa de juros elevada.

Sabe quando você aprende na escola que o Brasil na década de 90 teve que congelar o salário dos funcionários públicos, aumentar impostos, privatizar e outras medidas impopulares? Aí está a grande chave para compreender tudo isso, o fato de, com o fim do financiamento dos gastos por inflação, o governo não ter mais um orçamento equilibrado para funcionar e, à fim de manter um Estado com as diversas atribuições traçadas na Constituição, teve que realizar tudo isto para ter caixa.

E aqui está a historinha sobre a inflação brasileira, bem diferente da que o nosso amigo do Santos contou. E sim, uma análise histórica pode encontrar inúmeros defeitos no desgoverno tucano, mas uma coisa não podemos negar: Tentar negar a importância para a economia brasileira de um maior controle do Banco Central na emissão de papel moeda após o Plano Real é a forma mais falha e desonesta de se realizar esse debate. Se tem alguma coisa positiva pode ser atribuída à década de 90, foi a de finalmente conseguir deixar a economia estabilizada para conseguir gerar o crescimento dos anos seguintes.

____________________________________________

Dado retirados de: http://inflation.eu/inflation-rates/cpi-inflation-1994.aspx

Carta completa: http://revistaforum.com.br/blogdorovai/2012/09/09/uma-carta-aberta-a-fhc-que-merece-ir-para-os-livros-de-historia/

Caso queira entender um pouco mais sobre o mecanismo de inflação, segue esse texto mais aprofundado: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=313

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Artigos - Não Quebre a Janela

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s